Pontos-chave

  • SSC 2026 é a atualização mais abrangente desde 2021 — 69 especialistas de 23 países, incluindo representantes de países de baixa e média renda
  • Nova terminologia: sepse “definida”, “provável”, “possível” ou “improvável” — a probabilidade de infecção determina a urgência do antibiótico
  • NEWS/NEWS2/MEWS/SIRS são recomendados sobre qSOFA como ferramenta única de triagem (recomendação forte)
  • Sepse com choque: antibiótico imediato, idealmente em ≤1h. Sepse possível sem choque: reavaliação em até 3h antes de iniciar
  • Meta de PAM de 60–65 mmHg em pacientes ≥65 anos — alvo menor validado por novo ensaio clínico
  • Norepinefrina segue como vasopressor de primeira linha; vasopressina adjuvante recomendada ao escalar doses
  • Hidrocortisona 200 mg/dia permanece indicada no choque séptico (recomendação condicional)
  • Vitamina C, imunoglobulinas, vitamina D e antipiréticos: recomendação contra o uso rotineiro

Por que o SSC 2026 importa

Com aproximadamente 49 milhões de casos e 13 milhões de mortes por ano em todo o mundo, a sepse permanece uma das principais causas de morte hospitalar. 4 As diretrizes do Surviving Sepsis Campaign (SSC) são revisadas periodicamente para incorporar as melhores evidências disponíveis.

A edição de 2026, publicada simultaneamente no Critical Care Medicine e Intensive Care Medicine, traz mudanças relevantes em relação à versão anterior de 2021: nova terminologia diagnóstica, revisão dos critérios de triagem, refinamento das metas hemodinâmicas e posicionamento claro contra diversas terapias adjuvantes que continuam sendo usadas sem respaldo científico. 1


Nova Terminologia Diagnóstica

Uma das inovações conceituais do SSC 2026 é a formalização de uma linguagem padronizada de probabilidade diagnóstica, que deve guiar a urgência das decisões terapêuticas:

Terminologia de sepse no SSC 2026 — probabilidade diagnóstica
ClassificaçãoDefinição clínicaImplicação prática
Sepse definidaInfecção confirmada pela história, exame e testes diagnósticos. Diagnóstico alternativo muito improvável.Antibiótico imediato
Sepse provávelAlta suspeita — sepse é o diagnóstico mais provável; alternativa menos provável.Antibiótico imediato
Sepse possívelSuspeita moderada — diagnóstico alternativo também considerado.Reavaliação rápida (até 3h)
Sepse improvávelBaixa suspeita — avaliação clínica inconsistente com sepse.Diferir antibiótico; monitorar

A distinção entre “possível” e “provável/definida” é especialmente relevante para pacientes sem choque: para sepse possível sem choque, o SSC 2026 recomenda uma avaliação rápida de causas infecciosas vs. não infecciosas antes de iniciar antibioticoterapia.


Triagem: Fim do qSOFA como Ferramenta Única

O SSC 2026 emite uma recomendação forte para usar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS em vez do qSOFA como ferramenta isolada de triagem hospitalar. Quatro revisões sistemáticas e meta-análises demonstraram consistentemente que os escores de alerta precoce são mais sensíveis para identificar sepse do que o qSOFA.

Desempenho comparativo das ferramentas de triagem para sepse
FerramentaSensibilidadeEspecificidadeRecomendação SSC 2026
NEWS273,1%81,6%✅ Preferido
MEWS / SIRSAltaModerada✅ Aceitável
qSOFA23,1%Alta❌ Não recomendado isoladamente

Timing dos Antibióticos: Framework por Gravidade

O SSC 2026 refina as recomendações de 2021 com um framework estratificado baseado na probabilidade de infecção e na presença de choque:

Este framework é fundamental para equilibrar dois imperativos conflitantes: tratar precocemente pacientes graves e evitar uso desnecessário de antibióticos em pacientes sem infecção confirmada.

Hemoculturas: Antes dos Antibióticos

O SSC 2026 recomenda (recomendação forte) coletar hemoculturas o mais rápido possível, idealmente antes dos antibióticos — mas sem atrasar o início da antimicrobioterapia em pacientes com hipotensão. Um estudo mostrou que a positividade das hemoculturas caiu de 31,4% para 19,4% após 70 minutos do início do antibiótico.


Ressuscitação Hemodinâmica

Monitoramento de pressão arterial — avaliação hemodinâmica na sepse

Monitoramento da pressão arterial é peça central na ressuscitação do choque séptico.

Fluidoterapia: 30 mL/kg e Cristaloides Balanceados

O SSC 2026 mantém a sugestão de administrar pelo menos 30 mL/kg de cristaloide IV nas primeiras 3 horas em pacientes com hipoperfusão ou choque por sepse. Em obesos (IMC > 30), usar peso ajustado ou ideal para o cálculo.

Volume de 30 mL/kg em litros por peso e altura (simplificado)
Peso (kg)IMC ≤30 (peso real)IMC > 30 (peso ajustado)
60 kg1,8 L1,8 L
70 kg2,1 L2,1 L
80 kg2,4 L1,9 L*
100 kg3,0 L2,5 L*
120 kg3,6 L2,7 L*

*Calculado com peso ajustado (Peso ideal + 0,4 × [peso real − peso ideal]) para estatura média de 1,70 m.

Cristaloides balanceados (Ringer lactato) são sugeridos sobre SF 0,9% para a maioria dos pacientes, exceto em casos de hipercalemia ou TBI em que o Ringer pode ser menos adequado.

Metas de PAM

Metas de pressão arterial média no choque séptico — SSC 2026
GrupoMeta de PAMForça da recomendação
Adultos em geral≥65 mmHg (manter entre 65–70 mmHg)Forte, evidência moderada
Idosos ≥65 anos60–65 mmHgCondicional, evidência baixa

Vasopressores

Modelo anatômico do coração — hemodinâmica e função cardiovascular na sepse

A compreensão da fisiologia cardiovascular é essencial para a escolha e titulação de vasopressores.

Sequência de Escalonamento

Vasopressores no choque séptico — sequência recomendada pelo SSC 2026
LinhaAgenteDose/DetalheRecomendação
1ª linhaNorepinefrina0,01–3,0 mcg/kg/min; titulada para PAM-alvoForte (sobre dopamina, epinefrina, selepressina)
2ª linhaVasopressina0,03 UI/min fixos; adicionar ao escalar NECondicional — adicionar ao escalar NE (evidência moderada)
3ª linhaEpinefrinaAdicionar à NE ± vasopressinaCondicional (evidência muito baixa)
AlternativaEpinefrinaQuando vasopressina não disponívelPode substituir vasopressina

Dobutamina no Choque com Disfunção Cardíaca

Em pacientes com choque séptico + disfunção cardíaca + hipoperfusão persistente apesar de volume e PAM adequados:

  • Sugestão de adicionar dobutamina à norepinefrina ou usar epinefrina isoladamente (recomendação condicional, evidência muito baixa)
  • Levosimendana não é recomendada (recomendação condicional contra, evidência baixa)

Antibioticoterapia: De-escalonamento e Duração

Blísteres de antibióticos — antimicrobianos essenciais no tratamento da sepse

O de-escalonamento precoce do antibiótico reduz resistência, toxicidade e infecção por C. difficile.

De-escalonamento É Obrigatório

Duração

  • Cursos mais curtos são preferíveis (recomendação condicional): o estudo BALANCE confirmou não-inferioridade de 7 vs. 14 dias para bacteremia
  • Quando duração ideal é incerta: procalcitonina + avaliação clínica para guiar suspensão (recomendação condicional)

Beta-lactâmicos em Infusão Prolongada

Em pacientes com sepse e septic shock, o SSC 2026 sugere o uso de infusão prolongada de piperacilina-tazobactam e carbapenêmicos (3–4 horas) sobre infusão convencional (30 min), especialmente para patógenos com CMI elevada.


Corticosteroides

A hidrocortisona IV permanece indicada no choque séptico (recomendação condicional, evidência baixa):

  • Dose: 200 mg/dia — seja em 50 mg a cada 6h ou infusão contínua
  • Alta certeza de evidência para reversão mais rápida do choque (RR 1,29; IC 95% 1,13–1,46)
  • Efeitos adversos: hiperglicemia e hipernatremia são esperados

Terapias Adjuvantes: O Que NÃO Fazer

O SSC 2026 clarifica o posicionamento contra diversas terapias amplamente utilizadas:

Terapias adjuvantes com recomendação contra o uso no SSC 2026
TerapiaDecisão SSC 2026Base
Vitamina C IV❌ Sugestão contra55 ECRs — sem diferença em mortalidade em estudos com baixo risco de viés (RR 1,06; IC 95% 0,95–1,18)
Imunoglobulina IV (IVIG)❌ Sugestão contraSem novos ECRs de grande porte desde 2021
Vitamina D❌ Sugestão contraSubgrupo do estudo VIOLET sugeriu possível dano (aumento de mortalidade em 12,4%) com altas doses
Antipiréticos (febre)❌ Sugestão contra (para reduzir febre)Sem benefício em mortalidade ou reversão do choque (13 ECRs)
Hemoperfusão / hemofiltração❌ Sugestão contraIncerteza sobre mortalidade; alta heterogeneidade
Terlipressina❌ Sugestão contraRecomendação mantida desde 2021

Programas de Melhoria da Qualidade

O SSC 2026 traz uma nova recomendação forte para que hospitais e sistemas de saúde adotem programas estruturados de melhoria de qualidade para sepse, incluindo:

  1. Triagem sistemática de pacientes agudos de alto risco
  2. Procedimentos operacionais padrão para tratamento
  3. Estratégias de melhoria contínua com feedback de dados

Uma meta-análise de 50 estudos observacionais associou iniciativas de QI à redução de mortalidade (OR 0,66; IC 95% 0,61–0,72). O modelo “Code Sepsis” ou “Sepsis Huddle” — time multidisciplinar acionado na beira do leito — é sugerido como protocolo de implementação.


Resumo Prático: Checklist de 1 Hora

Com base nas recomendações do SSC 2026, os seguintes elementos devem ser iniciados ao reconhecer sepse com choque ou sepse provável/definida:

  • Triagem: NEWS2/MEWS/SIRS (não apenas qSOFA)
  • Lactato: medir; se > 2 mmol/L, repetir em 2h para avaliar clareamento
  • Hemoculturas: 1–2 pares antes do antibiótico (não atrasar o antibiótico)
  • Antibiótico: ≤1h em choque ou sepse provável/definida; ≤3h em possível sem choque
  • Fluidos: 30 mL/kg cristaloide balanceado (RL) se hipoperfusão ou hipotensão — reavaliação frequente
  • Vasopressor: norepinefrina se PAM < 65 mmHg persistente; iniciar periférico se necessário
  • PAM-alvo: ≥65 mmHg (ou 60–65 em pacientes ≥65 anos)
  • Corticoide: 200 mg hidrocortisona/dia se choque refratário
  • Controle de foco: intervenção cirúrgica/drenagem o mais precoce possível
  • Glicemia: manter entre 140–180 mg/dL

Referências

  1. doi:10.1097/CCM.0000000000007075
  2. doi:10.1097/CCM.0000000000005337
  3. doi:10.1001/jama.2016.0287
  4. doi:10.1016/S0140-6736(19)32989-7
  5. doi:10.1056/NEJMoa2100591